Quem melhor pode contar a história de Irmã Therezinha é sua colega Irmã Annette. Por isso é dela o texto que se segue:
"A trajetória de Irmã Therezinha é tão bonita, que eu não resisto a contar ao leitor alguns pormenores determinantes! Nascida em Guaratinguetá, Therezinha Stella Guimarães (ir. Ana Teresa) é parente do primeiro Santo Brasileiro, Frei António de SantAna Galvão. Ela viveu seus primeiros anos à sombra da Matriz Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Entrou na Congregação de Nossa Senhora, da ordem das Cônegas de Santo Agostinho, após seus estudos em Pedagogia na Faculdade Sedes Sapientiae, em São Paulo.
Aos 39 anos, e com a experiência de alguns anos como diretora no Colégio Stella Maris, em Santos, ela se lançou na descoberta de um "outro Brasil": o Nordeste! Mas antes, fez dois anos de reciclagem em teologia e psicologia, na Bélgica. Na mesma época, a Universidade de Louvain me ofereceu um tempo de pesquisa no Brasil, na minha especialização em Psicologia da religião. Juntamos então nossos dois projetos e nos lançamos à descoberta do povo nordestino em Recife, no tempo da ditadura militar, sob o olhar profético de Dom Hélder Câmara.
Durante doze meses, estudamos na escola dos pobres, nas CEBs, chamadas em Recife, "encontro de irmãos". Queríamos descobrir como nasciam as lideranças religiosas nessa área dinâmica da cultura popular, perseguida pelo regime militar da época. Alugamos uma casinha em Beberibe, na "Linha do Tiro" bairro pobre da Capital de Pernambuco, para nos aproximar o mais possível da realidade desse povo. Foi um ano muito proveitoso onde tivemos a chance de mergulhar no mundo das Comunidades Eclesiais de base.
Mas os planos de Deus eram diferentes para nós: Maninha, uma vizinha, tinha pendurado na sua sala, um grande póster de um homem, de batina, um padre... "Mas, quem é ele?" perguntava eu no meu português rudimentar da época. Maninha tentava explicar com gestos, palavras e emoções porque tinha tanta devoção nesse Padre... Ana Teresa se lembrava que se tratava do Padre Cícero, líder polêmico de um movimento religioso duvidoso do Nordeste mas que estava em fase de extinção! Era isso que se sabia do Padre Cícero e de seus devotos no Sudeste do País, nos anos 60!
Fomos convidadas pelos pais de Maninha, para conhecer Juazeiro. Mais do que curiosas, aceitamos sem hesitação. Passamos 10 dias na "terra da Mãe das Dores e do Padre Cícero", na casa de Seu Mocinho e Dona Tita, Rua Padre Cícero. Selvina, lavadeira da família, tinha se liberado de qualquer trabalho e compromisso para nos servir de cicerone. E que cicerone! Tinha passado algum tempo no Caldeirão, com o Beato José Lourenço. Era dessas mulheres sábias, descendente de índios, convicta de sua fé, e que nos oferecia, gota a gota, com prudência, o tesouro de seus conhecimentos em relação ao "mistério" do Juazeiro e do Padre Cícero.
Ficamos "encantadas" a ponto de tomar a decisão de continuar nossas pesquisas não mais em Recife, mas nessa "mina a céu aberto" que é Juazeiro do Norte. A oposição silenciosa mas determinada da Diocese de Crato, em relação às romarias a e ao Padre Cícero, nos questionava. Observamos ao mesmo tempo o isolamento e a coragem pastoral do Padre Murilo de Sá Barreto e de seu auxiliar, Padre José Alves, acolhendo com carinho e sabedoria os milhares de romeiros, ditos fanáticos, que acorriam na Matriz das Dores e na Capela do Socorro.
Mais do que pesquisadoras, somos cristãs e religiosas consagradas na linha da opção preferencial pelos pobres. Essa situação não podia nos deixar indiferentes! E foi assim que, depois de semanas de reflexão e hesitações, numa noite de São João, na Serra do Catolé, a decisão foi tomada. Pegamos no chão uma cabaça ainda verde e gravamos nosso compromisso: "De todo jeito, voltaremos para o Juazeiro. Ana Teresa e Annette - 24 de junho de 1974". Foi nessa noite que Therezinha Stella Guimarães decidiu enfrentar anos de pesquisa para chegar, em 1983, a defender sua tese de doutorado, objeto desta publicação.
Por que um tal esforço? Porque os pobres merecem que a gente se forme para servi-los! Com o apoio de Padre Murilo, planejamos abrir na Matriz das Dores dois centros complementares: "Psicologia da religião", e "Acolhida aos romeiros", cada Centro se alimentando do outro, numa dinâmica muito produtiva.
A pesquisa feita por Ir. Ana Teresa em 1983, escrita em francês, e defendida em Louvain, Bélgica, demorou para ser publicada. Entretanto, ela não ficou apenas na prateleira empoeirada de uma biblioteca de Universidade. Ela nos serviu de alicerce para construir e realizar, durante mais de 30 anos, um projeto de Pastoral de Romaria na Matriz de Nossa Senhora das Dores, em colaboração com o nosso saudoso Pastor e Mestre, Padre Murilo. O estudo dos arquivos e da correspondência do Padre Cícero nos revelou também o verdadeiro rosto e a personalidade deste Sacerdote .
Ir. Ana Teresa hesitou em publicar sua tese na sua apresentação árida, analítica, sistemática, segundo as exigências da Universidade de Louvain. Alguns amigos, entre outros, Antônio Renato Casimiro e Daniel Walker, a convenceram a não diluir ou simplificar a apresentação, pois o método semiprojetivo utilizado era, até agora, único no seu género no campo de pesquisa sobre os romeiros do Padre Cícero. Valia a pena uma apresentação sistemática das etapas estatísticas, mesmo fastidiosas, do caminho escolhido pela pesquisadora. Comunguei com essa opinião.
Quem sabe se, na leitura deste trabalho, um universitário não se entusiasmaria para reproduzir a pesquisa, com o mesmo método e rigor, hoje, 30 anos depois! Os estudos longitudinais são raros nesse domínio, mas ajudariam muito a verificar em que medida o papel do Padre Cícero junto ao Nordestino, está se modificando".
Maria Assunção Gonçalves - Nasceu em Juazeiro do Norte, no dia 1º de junho de 1916. É filha de Francisco Gonçalves de Menezes e Isabel Telles de Menezes. São seus irmãos: Pedro, Joaquim, João, José e Maria Gonçalves, todos falecidos.
Em 1923, Assunção Gonçalves fez seus primeiros estudos com a Profa. Argentina e aprendeu Tabuada com Pedro Vicente, um motorista muito conhecido que residia em sua (dela) casa, na época, localizada no Sítio Logradouro.
Em 1924, estudou com Dona Adelaide de Sousa Melo, e até 1928, no Externato Santa Terezinha, cujas mestras eram Stela Pita e Maria Gonçalves da Rocha Leal.
Em 1929, fez o 4º Ano Primário no Grupo Escolar Padre Cícero, com a Profa. Amália Xavier de Oliveira e o famoso Exame de Admissão no ano de 1930, no Colégio Santa Terezinha do Crato.
Concluiu o Curso Normal na Escola Normal Rural de Juazeiro do Norte. Como professora - são palavras dela - recebi influência dos Professores que muito marcaram minha vida: Mozart Cardoso de Alencar (que lecionava Botânica) e Vicente Xavier de Oliveira (que lecionava Matemática).
Em 1954, substituiu a Profa. Amália Xavier de Oliveira na Direção da Escola Normal Rural, quando a mesma afastou-se por motivo de viagem.
Em 1970, assumiu a Direção do Ginásio Municipal Antônio Xavier de Oliveira, tendo sido fundadora e primeira diretora daquele conceituado estabelecimento de ensino.
Assunção Gonçalves é artista plástica, com estilo e temática, contudo, ê autodidata na arte de pintar. No início desta atividade, recebeu aulas de sua prima, a Professora Amália Xavier de Oliveira, com aquarela, depois passou a pintai a óleo sobre tela.
Foi professora de Pintura no Ginásio Santa Teresinha de Desenho no Ginásio Salesiano São João Bosco.
As telas mais expressivas da artista plástica Assunção Gonçalves são: "Juazeiro Primitivo - 1827", "Padre Cícero", "O Pacto dos Coroneis” e “As Ceias Largas".
Em sua homenagem foram escritos os livros: "Assunção Gonçalves, uma Grande Educadora" de autoria de Maria do Socorro Lucena Lima e "Assunção Gonçalves, uma Vida Dedicada à Arte" de autoria de Íris Tavares. Foi também homenageada com o "Troféu Sesquicentenário do Padre Cicero" e uma creche e foi nomeada pelo governo do estado como Mestre da Cultura.
Outra homenagem lhe foi prestada pela Telemar que estampou uma das suas telas num cartão telefônico muito divulgado pelo Brasil. Assunção Gonçalves é uma das reservas morais da cidade de Juazeiro do Norte, é um exemplo de honradez, uma pessoa admirada, querida e respeitada por toda a comunidade juazeirense. Noutros termos: Assunção Gonçalves é um símbolo.
(Texto de Raimundo Araújo, extraído do seu livro Mulheres de Juazeiro).
Assunção conviveu com o Padre Cícero em sua fase de adolescente e dele guardou muitas recordações, algumas das quais chegou a publicar como colunista do nosso jornal eletrônico Juaonline. Era pessoa muito dedicada à Igreja, amiga dos antigos vigários de Juazeiro, especialmente do Padre Murilo que a chamava carinhosamente de “Nega”.
A ela Padre Murilo confiava muitos serviços da igreja, principalmente a organização da festa do Mês de Maio, pois ela era uma das mais atuantes integrantes da irmandade das Filhas de Maria. Toda terça-feira Padre Murilo almoçava na casa de Assunção, local também de encontro de intelectuais da terra e de fora, todos amigos do Padre Murilo que fazia questão de apresentá-los à grande amiga, como foi o caso do conhecido historiador norte-americano Ralph Della Cava, autor de uma grande obra de referência sobre o Padre Cícero.
Assunção será lembrada por conta da sua extensa biografia na qual figura como educadora, artista plástica, mestre na arte de confeitos de bolo, ornamentação de noivas (em sua casa ainda tem muitos vestidos de noivas). Era insuperável na arte de receber amigos em sua casa, onde todos que a visitavam eram recepcionados com mesa farta de guloseimas, principalmente bolos e sequilhos além de um café muito gostoso. Infelizmente, quando ficou prostrada numa cadeira, sem ânimo e disposição para conversa, sua casa, antes tão cheia de amigos (amigos?) as visitas foram rareando, restringindo-se aos poucos parentes ainda vivos e pessoas queridas, jovens que ela adotou em sua casa... Como editor do Portal de Juazeiro e durante a fase em que ela estava com a memória ativa, tive o prazer de entrevistá-la muitas vezes, oportunidade em que colhi um bom acervo de informações históricas sobre o Padre Cícero que ela conheceu e da vida do Juazeiro Antigo que ela viu de perto.