UMA SANTA NO CEARÁ:
BEATA MARIA DE ARAÚJO
profª Drª. Fátima Pinho
No dia 24 de maio celebramos 160 anos
de nascimento de Maria Magdalena do Espírito Santo.
Comemoração com live na net como mediadora Profª Claudia Rejane da URCA e cantos de benditos na casa da Mestre Nair Silva e Aparecida Rodrigues
Considerada por muitos estudiosos
uma das mais importantes mulheres da história do sertão nordestino, foi a principal personagem dos fenômenos que ocorreram nas décadas de 1880 e 1890 no povoado do Juazeiro,
então termo do Crato. Segundo os protagonistas dos acontecimentos religiosos - padre
Cícero e a beata Maria de Araújo -, a transformação da Hóstia consagrada em sangue se
deu pela primeira vez em 1° de março de 1889,
na sexta-feira que antecede o Carnaval.
O fato rapidamente se alastrou na oralidade e não demorou para ganhar espaço na
imprensa dentro e fora do Brasil. Cartas eram
enviadas do povoado às redações dos jornais
que narravam o que chamavam de “milagres”.
A primeira notícia sobre os fatos do Juazeiro foi veiculada num jornal de Fortaleza,
Pedro II, no dia 19 de julho de 1889, no qual
se anunciava:
“[...] na povoação do Joazeiro, termo do
Crato, existe uma mulher moça, de reconhecidas
virtudes.
Desde algum tempo, a datar de sexta-
-feira santa do corrente ano, que nas confissões
que faz, por ocasião de comungar, a partícula sagrada desfaz-se em sangue, de modo que a toalha da mesa de comunhão está completamente
manchada de sangue [...] O Rvd. Padre Cícero
Romão Baptista, que é o confessor de Maria de
Araújo (assim se chama a virtuosa moça) afirma o fato já descrito, que ainda ontem, antes
da missa cantada e sermão, reproduziu-se, de
modo que o sangue estava visivelmente novo.”
A partir daí a simples e pobre mulher e o
jovem padre Cícero, assim como o pequeno
povoado do Juazeiro, passaram a ser narrados,
discutidos, analisados, interpretados por jornalistas, médicos, cientistas, historiadores, etc.
Passados 132 anos do sangramento da
Hóstia, o lugar foi transformado na “capital
da fé nordestina”, recebendo, em tempos normais, mais de 2 milhões de romeiros por ano.
Padre Cícero e Maria de Araújo, igualmente,
ganharam visibilidade e projeção através da
imprensa, de livros e de centenas de estudos
realizados nas mais diversas áreas do conhecimento ao longo do tempo.
Neste tocante, no entanto, pode-se afirmar que, enquanto o padre Cícero foi transformado numa das personalidades mais conhecidas do Brasil, cuja biografia é descrita
em centenas de livros, objeto de milhares de
reportagens, julgado, defendido, analisado,
polemizado, estudado, etc., coube à beata Maria de Araújo apenas o papel de coadjuvante.
Ainda no final do século XIX, a Igreja
Católica, ao não reconhecer os fatos do Juazeiro como milagres, considerando-os como
“prodígios vãos e supersticiosos”, cassou as
ordens sacerdotais do padre Cícero e proibiu
os fiéis de falarem sobre a beata e os ditos fatos sob pena de excomunhão.
A beata Maria Araújo, que antes da condenação da Igreja foi tratada na imprensa como
a protagonista dos chamados “milagres”, descrita comumente com adjetivos elogiosos, tais
como: virtuosa moça, devota de reconhecidas
virtudes, santa, virgem, sendo em muitas matérias apresentada como a “A beata Maria do
Crato”, “A beata Maria do Juazeiro”, “A beata
Maria de Araújo e os fatos do Juazeiro”, “A
santa do Juazeiro”, “pobre e humilde serva de
Deus”, passou, sobretudo a partir de 1897, a ser
descrita como “cavilosa”, “embusteira”, “celebre
impostora”, “a grande embusteira do Juazeiro”,
“ardilosa embusteira”, “histérica”.
Embora continuasse a ser amada e adorada por milhares de sertanejos, no transcorrer
do século XX Maria de Araújo caiu no ostracismo, no esquecimento, pouco se falando sobre ela e quando o faziam, aparecia como uma
coadjuvante do padre Cícero.
Felizmente, na década de 1980, no meio
acadêmico, a memória de Maria de Araújo começou a emergir através da bela dissertação de
mestrado, depois publicada em livro, de Maria
do Carmo Forti, intitulada “Maria de Araújo: a
beata do Milagre”. Outros trabalhos acadêmicos
surgiram e monografias, dissertações, teses, artigos científicos, traziam a beata como tema.
Em 2014, por ocasião do centenário de
sua morte, teve início um movimento popular
com o objetivo de “resgatar a memória da beata Maria de Araújo”.
Hoje existe um grupo formado por devotos,
pesquisadores e religiosos intitulado “Movimento pela reabilitação da memória da santa beata
Maria de Araújo”, cujo intuito é realizar encontros acadêmicos e religiosos para discutir sua
importância nas questões religiosas do Juazeiro
e reivindicar dos poderes públicos o seu reconhecimento, como a lei que obriga a colocação
do retrato da beata em repartições públicas.
A beata Maria de Araújo ainda não ocupa
o lugar que lhe é devido na História do Juazeiro e da religiosidade sertaneja, mas que isso é uma questão de tempo.
matéria publicada no https://jornaldocariri.com.br/. 25 a 31 de maio de 2021 p.2 Opinião
Imagens da comemoração dos parabéns a santa beata Maria de Araújo ( atriz Tica Paiva) na casa da Mestre Nair Silva e Aparecida Rodrigues que nos anfitrionou , onde a mestre Dorinha do Horto cantou o bendito que sua mãe cantava
atriz Tica Paiva de beata Maria de Araújo
momento de comungar o chá da Santa